Rio das Pedras – História


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O surgimento e expansão de Rio das Pedras: como começou a nossa comunidade

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As primeiras famílias chegaram ao Rio das Pedras já no fim dos anos 1950. A atividade dos primeiros moradores na região pode ser comparada com a encontrada nas cidades do interior do país; eles eram, em sua maioria, lavradores que plantavam e colhiam nas terras. Eles viviam de uma forma diferente da encontrada em outras áreas da cidade na mesma época.

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Essa pequena população local se fixou bem perto dos rios que atravessam a comunidade. Não existia sistema de abastecimento na região e os primeiros moradores que se estabeleceram no local ocuparam um dos locais mais próximos do rio, conhecido como Rua Velha, e que compõe o núcleo original da comunidade. Naquela época, o rio das Pedras era a principal fonte de água para beber, tomar banho e lavar roupa.

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Os anos foram passando e a região da baixada de Jacarepaguá cresceu, seus sub-bairros foram se tornando mais populosos, entre eles, um em especial se destacou, a Barra da Tijuca. A região recebeu olhares de construtoras e da elite carioca já em 1969. A pedido do então Governador do Estado da Guanabara, Negrão de Lima, o arquiteto e urbanista Lúcio costa, responsável por planejar Brasília com Oscar Niemeyer, concebeu o que seria um “plano piloto” para a região da Barra. Para o arquiteto, a região seria o novo centro do Rio de Janeiro.

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Propaganda de uma edição de 1969 do Jornal O Globo. – Foto: Acervo Jornal O Globo
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Após 1970, a construção de estradas, como o elevado do Joá, que ligam Barra à Zona Sul, favoreceu a especulação imobiliária da época. Condomínios, shoppings e hospitais foram erguidos no local, com a ajuda de trabalhadores. Esses trabalhadores precisariam se fixar em algum lugar, e se fosse perto do trabalho, seria melhor. Dessa forma, não foi só a Barra que viveu sua expansão imobiliária. Rio de Janeiro viu a baixada de Jacarepaguá crescer e as favelas do entorno também, se tornando, a maior delas, o Rio das Pedras.

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Dona Maria da Penha, seu Marido e filha em Rio das Pedras nos anos 1970 – Foto: Acervo Pessoal
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Segundo o Instituto Pereira Passos, a região de Jacarepaguá foi a que mais cresceu na cidade entre 1970 e 2010.A tabela abaixo mostra a desenvolvimento da cidade e a divide por áreas de planejamento; a região da Barra da Tijuca e Jacarepaguá é representada pela Área de Planejamento 04 (AP04).

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Fonte: Armazém de dados – Instituto Pereira Passos (Prefeitura do Rio de Janeiros).
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Ao receber esses moradores trazidos pela expansão imobiliária da Barra da Tijuca, Rio das Pedras se transformou e aos poucos foi deixando de ser rural. O sociólogo e autor do livro “A utopia da comunidade: Rio das Pedras, uma favela carioca”, Marcelo Burgos, explicou o processo de urbanização da região e de apropriação dos terrenos. Em seu livro o sociólogo explica que a posse dos terrenos aos moradores foi concedida pelo então governador Negrão de Lima, “A consolidação do núcleo original da favela ocorre em 1969, quando os moradores conseguem junto ao governador da Guanabara, a desapropriação do terreno, acabando com a ameaça de expulsão em decorrência da pressão que vinha sendo exercida pelo proprietário da área.”

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nhttps://www.youtube.com/watch?v=k-5TAclTMQEn
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Anos depois, em 1983, ocorreu a primeira “invasão” planejada de Rio das Pedras. A área ocupada era conhecida como “Vila dos Caranguejos” e ficava às margens da Avenida Engenheiro Souza Filho. Era o primeiro ano de governo de Leonel Brizola. A segunda ocupação organizada por moradores, em parceria com a Associação de local, foi a da área que ficou conhecida como “Areal I”. A região foi povoada a partir de 1989.

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Segundo o livro “A utopia da comunidade: Rio das Pedras uma favela carioca”, um terreno de 400 m² foi dado à associação de moradores pelo governo do estado, que pretendia construir no local um grande conjunto habitacional. Com a demora na construção do conjunto, a Associação de Moradores e Amigos de Rio das Pedras (Amarp) resolveu dividir e doar os lotes. Ainda segundo o livro, a área teria sido subdividida em cerca de 3600 lotes.

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Moradora da região, a aposentada Maria da Penha acompanhou o processo das ocupações de perto. Na época, Maria da Penha era dona de um bar conhecido em Rio das Pedras e, por isso, o espaço foi utilizado, segundo a aposentada, para a concessão de escrituras aos moradores. “A ocupação do Areal, na época, o Brizola foi quem ajudou pra fazer as inscrições, então fizeram lá no meu bar, no meu ‘forró’. O pessoal fez as filas e fez para entrar no Areal, mas invadiram, e depois fizeram a inscrição lá no bar.”, conta a moradora.

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Leonel Brizola, em uma ocupação em Rio das Pedras, março de 1985 – Foto: Ricardo Leoni / Agência O Globo
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No ano de 1990, o grupo Delfin, que construía um condomínio para classe média ao lado do terreno cedido à associação, reivindicou uma parte que foi englobada na doação do governo. Os moradores, então, começaram uma negociação com o poder público, resultando na divisão do terreno. Metade seria da construtora e a outra metade seria dos moradores de Rio das Pedras. Ficou acordado também que a prefeitura, na época com gestão do prefeito Marcello Alencar, construiria casas para os moradores do “Areal I”. Entretanto, pouco tempo depois, os moradores perceberam que a construtora estava cercando toda a área, então eles resolveram invadir os 15 prédios do condomínio que ainda não haviam sido ocupados.

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No dia 17 de março de 1991, cerca de 6 mil pessoas invadiram o conjunto residencial Delfin Imobiliária. Os prédios, que estavam fechados por falta de habite-se, só foram desocupados quase um mês depois, no dia 12 de abril do mesmo ano. A construtora Delfin acabou falindo e então abandonou o plano de construir 16 mil unidades na região. Quando o conjunto foi invadido, a Delfin já havia vendido 216 imóveis.

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Moradores deixam a ocupação do prédio da Delfin em 1991. – Foto: Marcelo Carnaval / Acervo Jornal O Globo
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Ocupar os edifícios não foi tarefa fácil, os moradores precisavam subir até dez andares com latas d´água, já que não havia elevadores, instalações de luz, água e esgoto. Além do risco de desabamento, já que os prédios foram construídos numa área de solo hidromórfico, ou seja, um pantanal que fez com que as construções começassem a apresentar rachaduras no hall e nas garagens.

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Após a saída dos apartamentos invadidos, muitos moradores acabaram se instalando na área ao lado dos edifícios, formando a área que hoje é conhecida como “Areinha”. As negociações que resultaram no abandono dos apartamentos também resultaram na conquista das áreas conhecidas hoje como “Areal ll” e “Pinheiro” junto ao governo e a promessa de construção de novos apartamentos para os moradores que estavam na ocupação. Mas novamente a promessa da prefeitura não seria cumprida, e o que era para ser provisório acabou se tonando o que conhecemos hoje.

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Os Areais não seriam as últimas áreas da comunidade a serem ocupadas. Após as enchentes do ano de 1996, muitos moradores perderam suas casas e, para ajudá-los, a prefeitura fez a doação da área conhecida hoje como Rio das Flores.

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Após muitas décadas de crescimento, Rio das Pedras se tornou tão grande que ganhou o título de terceira maior favela do Brasil e, para alguns, poderia ser considerada um complexo de favelas. Rica culturalmente e extremamente contrastante, faz quem anda do alto do Pinheiro ao fim da Areinha conhecer realidades completamente diferentes. Contraste que só poderia estar em uma comunidade que abriga tantas culturas.

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